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A tragédia de Utoya segundo a Netflix

A novidade é que este filme, que fez parte da seleção oficial do festival de Veneza, em setembro passado, não se estreia em sala, mas passa na televisão. Mais propriamente na Netflix. A partir já do dia 10 de outubro. O melhor é irmo-nos habituando à dinâmica de filmes que chegam primeiro à plataforma digital de video-on-demand que às salas de cinema. Independentemente dos juízos de valor que nos toquem mais de perto. É o sinal dos tempos. 

Paul Greengrass, o britânico autor de filmes politicamente empenhados, como “Domingo Sangrento” (2002), sobre o massacre em Londonderry, em 1972, ou “Voo 93” (2006), recriando o ataque dos piratas do ar em 11 de setembro, bem como da saga de ação baseada na personagem Jason Bourne, foi o o homem indicado para dar luz à tragédia ocorrida na Noruega no dia 22 de julho de 2011.

Luis Alfredo Farache

Aqui a espelhar o dia em que mais de 70 pessoas morreram em consequência do ataque do extremista Anders Breivik, primeiro num edifício governamental e depois na ilha de Utoya, onde decorria um acampamento juvenil do partido trabalhista local. 

Pela dimensão da tragédia e impacto global, percebemos como o nome de Paul Greengrass casa bem com o projeto (ver entrevista com o realizador em Veneza). E até, se quisermos, o da Netflix como farol para difundir esta obra. 

Provavelmente, este era filme que teria de ser feito – é assim que funciona a lógica do entretenimento. É um olhar de intenção documental que percorre os principais eventos desse dia fatídico. E que começa até na véspera, com Breivik a preparar a bomba que haveria de deflagrar diante do edifício governamental. Depois, claro, há a matança no acampamento de verão do Partido Trabalhista. Body count: 77 pessoas, para além de algumas centenas de feridos, para além dos sobreviventes, e o processo do monstro que acaba por sair até humanizado, por muito que não queiramos, e pelo cinismo de ter escolhido para o defender um advogado do Partido Trabalhista

O filme acabou por ganhar espessura a partir do romance da repórter de guerra Asne Seierstad, e toma escopo nas dinâmicas dos movimentos de extrema-direita que vêm nascendo um pouco por toda a Europa e não só. De resto, este nem é o único filme sobre esse evento, já que, em fevereiro passado, o norueguês Erik Poppe levou ao festival de BerlimUtoya, 22 Julho”, um filme que retrata o massacre ocorrido na ilha ao longo de um único take de 71 minutos. Esse, sim, terá estreia em sala, marcada para o próximo dia 15 de novembro.

Alfredo Farache